Sexta-feira, 25 de Novembro de 2011
25 de Novembro de 2011

Seus pés balançavam sem ousar pousar no chão. Ali estava ela, pendurada, suspensa, enquanto os seus pés oscilavam com uma determinação que faria tremer quem a olhasse dos joelhos para baixo. Encontrava-se sentada no cume do rochedo e exibia a sua vaidade através do balançar das suas pernas provocando aquele que semi- submerso na água tentava alcança-la. Ele saltava, sentindo na planta dos seus pés o escorregar das pedras do rio que por ele passava, por vezes quase a alcançava, quase que os seus dedos sentiam o toque aveludado da pele dela. Mas ela dançava sentada, brincava com o acto de oscilar as pernas e gozava com o desalento de quem a desejava. E lá estava ela fugindo, dançando.



Escrito por: Inês às 19:24
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Quarta-feira, 8 de Junho de 2011
8 de Junho de 2011

Há algo de fascinante na espera. Algo dramaticamente fascinante. O estar sentada a um canto no anseio de o ver sem ter certezas de nada, sem um sinal do seu aparecimento apenas tendo fé, e talvez esperança como companhia. É uma loucura amargurar assim e fazer uma vénia ao sentimento de desconsolo enquanto nos consume segundo a segundo. A camisa de dormir de seda no corpo, o apartamento vazio e as persianas abertas para me debruçar à janela e partilhar minha espera com a luz do candeeiro que abana que entra de soslaio. Eu, torno-me escrava de uma ideia e de sinais cuja memória já perturbou. Ele nunca disse que vinha, quando lhe perguntei houve apenas silêncio, mas afinal de contas, quem cala consente. Poderia ir já dormir e enganar o desespero da expectativa mas a noite espera-se longa e o sono tardará. Ficarei sentada perto da janela. Ouvem-se passos ao longe.



Escrito por: Inês às 22:18
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Sexta-feira, 4 de Fevereiro de 2011
4 de Fevereiro de 2011

Havia uma falsa vodka no chão com um leve sabor a framboesa ao nosso lado. Não me lembro se estava frio ou calor, mas garanto que estava escuro. Eu estava ao teu lado, demasiado ao teu lado, afinal eras apenas um estranho para mim. No ecrã passava o filme "A Corda" do Hitchcook vezes e vezes sem conta, quem diria que com um filme desses a tua companhia continuava a captar toda a minha atenção. No entanto os meus olhos nem num segundo se desviaram do filme. Estava séria, imóvel e completamente fria, Hitchcook faria um filme das nossas emoções se observasse o que se estava a passar. "Deixa-me experimentar uma  coisa." No meu silêncio mudo só já senti um beijo e um aroma leve a álcool. Levantei-me e sem quebrar a escuridão caminhei até outra divisão, a porta foi deixada entreaberta. Despi o que tinha vestido e vesti um robe que mais não era do que um velho casaco de lã comprido. Aproximei-me dele, ainda semi deitado no chão e disse num registo baixo e muito perto da boca dele:"Meu amor vou tomar um banho." A sua mão tentou alcançar o meu pescoço, a falsa Vodka continuou no chão e o filme a dar. Nunca tanta sensualidade ocorreu sob a luz de um filme do Hitchcook.



Escrito por: Inês às 22:11
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Sexta-feira, 28 de Janeiro de 2011
28 de Janeiro de 2011

Subtileza é o seu nome do meio. As pessoas olham-na mas não a conhecem, como se ela  fosse uma fotografia de há muito tempo atrás. Ela prefere assim, há algo de extremamente deselegante em falar demais, em revelar demasiado, em deixarmo-nos conhecer com uma terrível e fatídica facilidade. O silêncio é muito mais tentador com os seus presságios de mistério, no entanto, nunca ela deixou de apreciar o doce poder da palavra que revelada com sabedoria é o maior dos encantos. Oh, o prazer que ela sentia em usar a sua voz cheia de credibilidade para dizer a mais certa das coisas sem ter dúvidas ou gaguejar uma vez que fosse. Haviam-lhe dito uma vez que a política deveria ser a sua vocação com a sua presença forte, voz segura e sobretudo uma capacidade de persuasão incontornável. Sem perceber se isso seria um elogio ou uma maldição limitou-se a sair do lugar e agora sabe-se lá quando voltará.


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Escrito por: Inês às 11:38
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Terça-feira, 30 de Novembro de 2010
30 de Novembro de 2010

Vejo-te na rua, longe muito longe. Quero correr mas ando devagar. Talvez não sejas tu afinal. Queria que fosses tu. Acho que és tu mas se fosses tu terias os braços abertos e eu correria. Eu caminho lentamente e os teus braços não estão abertos. Curioso, nunca corri para te abraçar. Só uma vez em que por acidente caí e os teus braços abriram.




Sábado, 6 de Novembro de 2010
6 de Novembro de 2010

Ela cheira a confiança, cheira a alfazema. Está irresistível e parece intocável. Quero-lhe tocar, quero guardá-la no bolso quero que ela volta a ser a maça dos meus olhos. Ela parece grandiosa demais. Perdi-a, ela cheira a alfazema. Quero-a de novo com as mãos no meu cabelo, com os dedos a percorrer o meu pescoço, mas ela cheira a alfazema. Quero a graciosidade e a sensualidade dela.  Oh ela cheira bem demais para eu não ficar com ela.  Tento agarrar a mão dela, fria e rosada mas ela já não está ali. Está longe, a sorrir e a caminhar ao som de uma canção de rádio que começa logo a trautear. Perdi-a, ela não só cheira a confiança como também cheira alfazema. -Pensou ele.



Escrito por: Inês às 20:45
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Sexta-feira, 5 de Novembro de 2010
Momento 2

Eu estava ao telefone. Falava rápido naquele tom apressado de quem demonstra a simpatia do despachar. Senti-te a caminhares para o meu quarto mas a luz, nem vê-la. Desliguei, do telefone, não de ti, nunca de ti. Dez metros de distancia sem nunca deixar de sentir o teu respirar. Segui o teu respirar, segui-te. Encontrei-te deitado na cama, a atravessá-la e a desafiares a ordem dos costumes. O teu tronco nos meus lençóis, a tua face centrada em mim. Deitei-me ao teu lado. O meu peito nos meus lençóis e a minha face centrada em ti.



Escrito por: Inês às 19:11
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Quinta-feira, 4 de Novembro de 2010
5 de Outubro de 2010

Um dia deixarás de ser tu. Será alguém, algo, nada, tudo, mas deixarás de ser tu. De ti só sobrará uma vaga ideia, uma paixão passageira, uma imagem de à tempo demais para ainda ser verdade. Não serás mais tu. Serás apenas uma sombra, ilusão, imaginação. Quando tu deixares de ser tu não sentirei mais a tua falta e descansarei em paz. Não deixes que isso aconteça.



Escrito por: Inês às 23:58
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Domingo, 31 de Outubro de 2010
31 de Outubro de 2010

A doçura peço-te a doçura. A doçura do teu ser sobre o meu, a necessidade de te dizer, de te mostrar o desejo e o meu interesse em ti. Eu interesso-me por ti. Eu sei, disse-te ontem e digo-te também agora, eu interesso-me por ti. Doçura, a doçura do meu sentimento por ti. Não, não estou confusa, é doçura o que me faz encantar por ti, é doçura tu a segurares-me no cabelo. As tuas mãos o meu cabelo, molhado, lavado, nas tuas mãos. Não, não sei se gosto de ti, eu interesso-me por ti. Não, não estou confusa, é doçura o que me faz derreter-me a teus pés. Não, não é a doçura que me impede de gostar de ti, é apenas o começo de pura e genuína travessura.




Quinta-feira, 28 de Outubro de 2010
28 de Outubro de 2010

Se me ligasses todas as noites seria feliz. Uma felicidade vulgar é certo, mas constante e acolhedora. Eu sei, é algo simples, tão extraordinariamente simples que até mete dó, tão fácil que faria os grandes romances chorar de vergonha. Não haveria palavras doces nem ásperas e não haveria paixão, talvez amor, mas nunca  paixão. Seria um ritual de descanso como apagar a luz ou deitarmo-nos. Depois dormiria. Seria feliz, mais feliz.



Escrito por: Inês às 21:23
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Segunda-feira, 25 de Outubro de 2010
Momento 6

A música passava sozinha e aleatoriamente. Era dia mas a persiana não subia, a luz entrava através dela. Estávamos mais uma vez ali, sentados frente a frente nas altas cadeiras pretas. É surpreendente como não conseguimos parar de nos olhar nos olhos. Tento respirar fundo com elegância e subtileza enquanto me preparo para o que se avizinha. Ele começa a falar, pausadamente, diz algo de bom, algo de doce. Sorrio com a cabeça baixa e o olhar ainda colado ao dele. Poderia chamar-se de sorriso inocente mas era antes um sorriso controlado. Ele parou de falar e mudou a música. Olhou para mim e cantou as frases da música num ritmo certeiro e pausado, como se da continuação da conversa se tratasse. Eu continuei sentada na cadeira preta, imóvel, com o sorriso controlado e as emoções à flor da pele e ele cantava-me: She left a week to roam/ Your protector's coming home / Keep your secrets with you / Safe from the outside / You walk along the stream/ Your head caught in a waking dream / Your protector's coming home (coming home) / As you lay to die beside me, baby / I'm the one in the shootin' game / Would you wait for me,/ the other one, / would you wait for me? / You run with the devil.

Ainda agora me pergunto se ,como tudo, a música foi aleatória. No entanto nunca me senti mais tentada a deixar os meus segredos comigo, a esperar por ti e a correr com o diabo, parece tudo romanticamente indissociável e afinal o que tenho eu a perder? Vendi a minha alma por álcool e amora nos teus lábios.


Escrito por: Inês às 21:56
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Domingo, 24 de Outubro de 2010
24 de Outubro de 2010

Foram vinte e três horas e catorze momentos.

(E tudo será escrito pelo tempo da teoria da reminiscência.)



Escrito por: Inês às 22:39
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Sexta-feira, 8 de Outubro de 2010
8 de Outubro de 2010

Ele caminha no passeio mas não com a descontracção das pessoas vulgares. Caminha na borda do passeio como se fosse uma corda bamba, como se uma rajada de vento bastasse para o empurrar para o passeio ou para o fazer cair para a estrada. Indiferente ao mundo concentra o seu olhar nos pés que tão depressa estão alinhados numa perfeita sintonia como se perdem e deambulam . Agora desequilibra-se e roda os braços inocentemente numa tentativa vã de recuperar o equilíbrio, recompoem-se depressa. Eu estou entre ele e o lado seguro do passeio. A minha mão não toca na dele, o meu braço não está enrolado ao dele, apenas caminho ao seu lado e observo esse seu jogo de sapateado. Por vezes o vento está do meu lado e ele desequilibra-se com vantagem para mim, enrola o seu braço no meu e fica seguro. Noutras vezes ganha a estrada e sabe-se lá por quanto tempo o vento vai estar em seu favor.



Escrito por: Inês às 22:04
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Terça-feira, 5 de Outubro de 2010
5 de Outubro de 2010

Champanhe, amanhã o almoço será champanhe. Só porque acaba o horror.



Escrito por: Inês às 23:05
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Segunda-feira, 4 de Outubro de 2010
4 de Outubro de 2010

A água fica-te bem. Afasta o teu cabelo dos teus olhos que rapidamente aclaram. Já tinha observado esse fenómeno antes ,quando cais-te em desgraça e te começas-te a desfazer em água salgada. Mas agora era diferente. A água sobre ti era doce e envolvia-te por completo. O cabelo loiro escuro perdeu o loiro e ficou apenas escuro, liso. Os teus lábios de um vermelho vivo viciante, pareciam sempre acabados de beijar. Os olhos, oh os olhos, faziam-me olhar pela primeira vez a cor verde-água. E no entanto, no auge da sua beleza e do meu encantamento a mente dela ainda vagueava. Pergunto-me se a água a fará sempre cair, seja em desgraça ou em mistério. Pergunto-me se da mesma forma que um quadro capta a beleza do ser exposto roubando a alma do ser pintado se a água lhe dá beleza e lhe esvazia a mente. Agora olho e só vejo a beleza, a alma essa há-de voltar. -Pensou ele.



Escrito por: Inês às 15:07
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Quarta-feira, 29 de Setembro de 2010
29 de Setembro de 2010

Ele chegou a casa com aquele ar despreocupadamente fascinante, ignorando que eu o seguia de uma forma tão próxima que sentia o seu cheiro. Suave e nada comercial, algo como um viciante odor natural que adornava a sua beleza. Os meus passos imitavam os dele no espaço fechado e no tempo, interminável. A seda do meu vestido parecia incriminar-me pela forma como se movia com uma fluidez tal que fazia inveja ao vento da janela por fechar. Os passos dele apressaram-se para depois simplesmente parar e fixar o olhar castanho mel em dois pedaço de papel mal recortado que emoldurei na parede. Um deles negro cor de carvão apenas com uma simples inscrição ao fundo. "F is for foreplay".O outro uma teia de complexidade sobre a interpretação das probabilidades. Enquanto o distrai-a com estes falsos enigmas deixei o vestido seda cair como se o tivesse na mão e não no corpo. Ele, imóvel, de olhar roubado pelos papeis emoldurados na parede. Eu descalça, a fazer do vestido tapete e dos lençóis vestido.



Escrito por: Inês às 17:19
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Quarta-feira, 22 de Setembro de 2010
22 de Setembro de 2010

Enquanto caminhávamos, calados, sombrios e terrivelmente sóbrios o carro que circulava a nosso lado encostou e de lá uma rapariga gritou:"Sai já do carro". O rapaz ao lado dela com uma desonesta ingenuidade ficou imóvel. Nós caminhávamos sem fazer um comentário, sem deixar escapar um olhar de cumplicidade, sem um sorriso como fazem aqueles que sentem que tiverem direito a espreitar um pouco da vida de alguém num momento de puro acaso. O carro voltou a andar. Dez passos depois o carro parou novamente. O filme repetia-se. Ela gritou a mesma frase, mais alto, mas a mesma frase. O rapaz ao lado dela continuava imóvel. Juraria que não havia alguém ao seu lado pela forma como ele se encontrava petrificado. No entanto o rapaz não saiu, nós não paramos de andar, o carro continuou e a Terra nunca pareceu tão parada, tão apagada. O mundo não se moveu.



Escrito por: Inês às 21:52
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Quinta-feira, 2 de Setembro de 2010
2 de Setembro de 2010

Querido amante temos de conversar. Isto de desprezares a minha ansiedade e os meus esforços por te convidar devidamente não pode de modo algum continuar. Agora devido a esse teu atrevimento descarado e completamente inconveniente vejo-me a destreinar a minha capacidade de escolher palavras para ti em forma de convite irrecusável e a perder a oportunidade de exercer o meu encanto. Tudo isto porque no mais preciso, encantador e surpreendido dos teus modos perguntas-te-me:

-Não queres estar comigo amanhã?



Escrito por: Inês às 19:41
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Quarta-feira, 1 de Setembro de 2010
1 de Setembro de 2010

É inevitável não é?

Cair em desgraça ou glória no espaço de uma frase de meia dúzia de palavras com sotaque de convite. Ponderar parece-me bem por agora, medir as palavras, calcular as probabilidades, ler a tua mente e captar toda a tua atenção. Definirei mandamentos que em caso de caos não me façam perder a compostura: Não usarei palavras vazias, não cairei no vulgar, não farei ultimatos, não soarei a desespero nem a excitação. Serei precisa, encantadora, surpreendente.




Sexta-feira, 27 de Agosto de 2010
27 de Agosto de 2010

Deitar-me contigo na relva num dia solarengo de verão parece cliché. Roubar uma toalha para que a ondulação do meu corpo com o teu não tivesse o efeito desgostoso do esverdear do que vestíamos parece tolice. O teu tom de voz combinado com o teu ar mais encantador soa a romance de música indie.

Quem nunca se deleitou na simplicidade dos quase-nada?



Escrito por: Inês às 21:31
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